
Não há como disfarçar a alegria no rosto de Victor. A etapa mais delicada que ele havia passado em sua vida em questões de saúde havia finalmente sido concluída. Todos os exames de aferição do sucesso da cirurgia haviam sido realizados e tudo estava normal. O incomodo da perna e da região do abdômen era algo que logo, logo se resolveria e na cabeça dele so havia o ânimo mais do que latente de “voltar para a sua Luh” já que, na verdade, em todos os momentos, mais do que médicos, acompanhantes e qualquer pessoa que fosse, quem esteve mais perto dele durante este período foi Luana. E não foi diferente na viagem de volta, onde o banco vazio no ônibus denunciava que ali não estava daquele jeito de propósito, mas sim porque aquele lugar, especificamente, havia uma dona, e ela queria estar do lado de Victor. E assim foi feito, tal e qual o desejo dele.
Assim que chegou o pensamento era so ver a Luana. Pra isso esqueceria o cansaço da viagem, a recomendação de repousar, de tudo isso, pra que afinal pudesse matar aquela saudade que lhe consumia muito mais do que qualquer coisa. Mas como entender essa relação, já que ele a sentiu a todo instante dentro do hospital, recebeu suas ligações, e conversou com ela? Sua casa tem algo mais especial para ele. É mais intimo conversar com a Luh naquele mesmo sofá, poder passar horas conversando além do que puderam lhe dar as ligações, condicionadas ao crédito de cada um, e das conversas que tinham limitação de tempo no hospital. Ali poderiam passar o dia, falar o que quisessem sem a famigerada noção de tempo, sempre ele, que sempre insistiu em passar como um foguete quando estão juntos.
Quando se encontraram foi um misto de emoção e preocupação, afinal estava recente a cirurgia e Victor já estava ali em frente do PC ansioso para falar com Luana, que por sua vez Tb estava preocupada com isso mas a ansiedade em poder lhe ver e ouvir, aliado a curiosidade em saber como tinha sido todo o procedimento foi maior ainda. Depois, ela iria confessar a ele que na verdade ficou muito aflita com a situação, mas que não repassou isso a Victor pois poderia ser prejudicial ao pensamento dele na hora de passar pela cirurgia. Era necessário passar o Maximo de confiança possível e mostrar a ele que tudo daria certo, como realmente deu.
Luana contou que em uma conversa com uma amiga, sobre tudo que estava acontecendo, a mesma disse a ela que sabia de um caso parecido onde a pessoa que passou pelo problema acabou morrendo. Nesse instante Victor sentiu tudo aquilo que Luana pode ter sentido com essa situação, mas ela mais uma vez surpreendeu, falando que depois ate deu risada, já que cada caso e um caso, e maior que a angustia era a confiança de que nada daquilo pudesse vir a ocorrer.
Mesmo com o cansaço, tudo parecia melhor para Victor. Sem o peso de tudo que havia passado naqueles dias, sua casa parecia mais bonita, os moveis pareciam mais brilhantes... em suma, o valor concedido as coisas mais simples, que já era grande pelo seu jeito de ser, passou a ser maior ainda, e também reafirmou o sentimento que ele tem por Luana: o primeiro pensamento dele em tudo que fez, deixou de fazer, em tudo que imaginou tinha ela como centro. Sentiu o quanto é fundamental senti-la perto dele para que pudesse se sentir feliz. Quanto ela faz bem para seus dias e noites, e que não há nada melhor no mundo que, na hora de dormir, tem alguém que vai junto dele, e lhe faz carinho assim como ele também faz. Se sente um menino. Justo ele, um homem, com orgulho de sua vivência, mas ele sabe no seu interior, que ela sabe do Victor menino, do Victor homem, e porque não do Victor bebê? Aquele bebê que ela acha lindo na foto em preto e branco, que mostra um menino que seria mais tarde o homem que lhe faz feliz a cada segundo.
Nesses dias de encantamento e felicidade a rotina de Luana e Victor estava maravilhoso. O dia começava sempre com uma ligação. Geralmente de Victor a Luana nos dias de semana, aproveitando o momento só que tinha sempre pelo inicio da manhã no trabalho, ou mesmo ainda em casa, acordando o seu “moranguinho” com todo carinho. Justo Luana que odeia ser acordada, confessa que so se sente bem ao acordar quando é ele quem a desperta, com a voz gostosa que ela adora ouvir de seu “lindeza”. Os apelidos carinhosos se multiplicam de tal forma que fica difícil até de enumerá-los aqui nestas páginas. Eram conversas rápidas, que cada vez mais foram se acentuando, até que meia hora de carinhos no telefone era muito pouco pra eles, que sempre se despedem com gostinho de quero mais. Detalhe importante é que Victor nunca gostou de telefone e por conta de seu trabalho sempre lidou com o mesmo de forma muito impessoal. Pelo telefone agora despeja gracejos e agrados à sua amada como se a estivesse fazendo carinho em seu rosto pelo fone q se encosta ao conversarem.
E esa saudade da voz um do outro se estende pela manhã... na menor oportunidade Victor saca o telefone e liga pra Luh, para saber como esta o serviço, matar as saudades daquela voz que lhe faz bem, e que nem sempre pode atendê-lo, afinal ela trabalha e nem sempre dá pra ouvir o amado do outro lado da linha, embora vontade não lhe falte, o que sempre sobra na hora do almoço, onde o habito se mantém, procuram sempre almoçar juntos,contando coisas do dia dia e fazendo seu “nada juntos” para que à tarde voltem a doce rotina de matarem as saudades via telefone. À noite, momentos de tranqüilidade os dois podem conversar com mais calma e geralmente não dão muita atenção ao horário, que recorrentemente se adianta mais do que pode dizer o bom senso de quem tem que se preparar para trabalhar no outro dia, mas os dois nem se importam. Não é raro o desejo tomar conta das conversas e eles se entregarem ao prazer de fazerem amor, das mais variadas formas possíveis, sem limite para a imaginação, sentindo de forma indescritível o tesão que emana deles. Depois, a satisfação é difícil de esconder e eles continuam se sentindo, juntos um do outro, curtindo os momentos seguintes de uma noite de libidos à flor da pele e de entrega aos melhores desejos. E assim vão ate se deitarem, sempre juntos e bem agarrados, se protegendo, se dando mais felicidade para o dia que está por vir.
Nos finais de semana, quem gosta de surpreender é Luana, que geralmente acorda Victor bem cedinho com palavras carinhosas, que ao contrario da maioria que se incomoda com o barulho do telefone ao amanhecer, fica feliz quando ouve os acordes da musica “Pense em Mim” do cantor Darvin no seu ouvido logo cedo. É o toque exclusivo da Luh, e pra ele, tem tudo a ver com a historia dos dois, principalmente o refrão que diz:
“Pense em mim
Que eu to pensando em você e me diz
O que eu quero te dizer, vem pra cá
Pra eu ver que juntos estamos e te falar
Mais uma vez que eu te amo”
E também por um trecho que basicamente é feito um pro outro:
“quem foi que disse que pra ta junto precisa ta perto?”
A eles nada disseram, pois se sentem mais juntos que qualquer coisa.
Cabe agora abrir uma pagina particular da vida dos dois de forma muito especial, que evidencia o quanto Victor esta integrado a vida de Luana e a recíproca é amplamente verdadeira: a forma como as pessoas mais importante da vida de um e de outro passaram a ter importância a eles.
Vamos começar por Cauã, o filho da Luana. O pequeno garotinho é assunto recorrente das conversas de Victor, que sempre pergunta como ele ele está e o que anda fazendo, coisa que nitidamente deixa a mamãe contente, e que fala com total liberdade o que o seu filhão faz e fala. Victor adora o jeito de falar das crianças, e com o Cauã isso fica ainda mais realçado, a ponto de muitas das coisas que Luana e ele falem, tenha influencia exatamente no jeitinho especial do Cauã em dizer as palavras, ainda aprendendo a dicção correta, mas que proporciona uma forma muito bonitinha de falar. Uma delas, e a mais usada, é a forma com que ele chama a mãe – de amole - e que foi transferido ao trato de Victor e Luana entre si, um chama o outro assim, e até gera brincadeiras, já que o Cauã está numa fase em que a possessividade esta aflorando, e ele diz que o amole é dele, portanto, não poderia ser do Victor, que diz que vai negociar essa divisão da Luh com ele, e claro, pensa sempre em poder brincar com ele, se divertirem juntos – Victor, Cauã e Luana.
Pela distancia, presentes entre os dois ficam difíceis de serem dado, a não ser aqueles que tocam mais ao coração, que é através de um gesto, um ato que marque aos dois. E num desses momentos, Victor recebeu um dos presentes que considera mais lindo de Luana. Por duas vezes, ela colocou na linha do telefone a voz linda de uma criança para que ele ouvisse. Exatamente Cauã, que disse poucas palavrinhas mas que atingiram de imediato aquele homem de 1,93 mas que pareceu desabar com a emoção. Mais do que o apreço e o carinho que já havia acumulado naturalmente pelo que conversava com Luana, era uma criança que ele considera muito especial, por ser o diamante mais precioso da vida da mulher que ele ama, e que ele de pouquinho em pouquinho, despretensiosamente e sem perceber, chegou a conclusão de que ele o amava também, e aquela vozinha dizendo “oi” e “tchau” e na segunda vez, o chamando todo especialmente a ele de “tio Vito” o fez perceber esse amor . e a cultiva-lo com toda força.
Por outro lado, a afinidade que se estreitou de Luana em relação a Victor foi com sua mãe, que recorrentemente é assunto dos dois. A Mãe de Victor, a dona Dilú vem passando por momentos delicados com relação á sua saúde, além do que Victor tinha de ter muito cuidado em falar dos seus problemas para ela, já que qualquer coisa poderia afetar-lhe de alguma forma. E Luana acompanhou de perto esses problemas, sempre perguntando sobre todas essas coisas e se preocupando com esse dilema de Victor em ter que resolver seus problemas em paralelo com os problemas dela. Isso também proporcionou uma relação de afeto e carinho entre elas. Dilú na mesma proporção sempre pergunta como está Luana, e se encantou ao ver a foto de Cauã, dizendo que queria ter um neto assim... Todas essas coisas são ingredientes de um sentimento que se revelava cada vez mais solido, e na mesma proporção, mais intenso.
E assim foram passando os dias de calmaria até que Victor fora fazer a viagem novamente a Campo Grande, coisa de rotina, apenas para conferir se a cicatrização no local foi completa mesmo (embora já não tivesse mais sinal nenhum da cirurgia de forma externa, a não ser uma pequena elevação na região da infusão da agulha, na perna direita) e estabelecer as datas para os próximos exames de rotina, que teriam periodicidade trimestral, semestral e anual, de forma gradual, até não mais precisar desse recurso. Como sempre a viagem foi com o pensamento em Luana, e que pudesse dar tudo certo, afim de que, pelo telefone, pudesse dar a ela em primeira mão a comunicação de que estava tudo cem por cento e não haveria mais porque temer a nada.
Chegando no hospital e fazendo os exames prscritos pelo médico, a ansiedade era pouca em relação às outras vezes em que o assunto tinha sido abordado anteriormente. Uma aura de confiança passou a pairar sobre Victor, que enquanto esperava os resultados, saboreou um café e lendo revistas de assuntos diversos na sala de espera. A verdade é quem nem prestava atenção na revista, mas a tranqüilidade era tanto que se viu à vontade de pegar algo apenas para olhar as figuras. E eis que o médico o chama para dar a resposta.
Um baque
A cirurgia, dentro daquilo que tinha sido constatado pelos médicos, foi um sucesso, porém, algumas partes nodulares estavam escondidas entre o tecido interno de Victor, sendo necessário um novo tratamento e praticamente acertado que uma nova intervenção cirúrgica também se faria. Victor ficou por um tempo atônito, pensando em todas as coisas que havia passado e também em sua Luana, de que forma poderia conversar com isso sobre ela, que sempre teve tanta confiança, e que agradeceram juntos a passagem de mais uma etapa.. e agora ver que a etapa em questão não estava de todo ultrapassada.
Pensou, em agonia, como falar... não somente para ela mas também para sua mãe. Decidiu contar mas na hora titubeou... disse apenas que não tinha sido completo totalmente mas o que La estava sobrando seria retirado por intermédio de tratamentos. Sim, os remédios ajudariam, porem não de forma total a extirpar o problema. A intervenção era precisa mas não foi proclamada por ele. Esperança de não precisar? Medo? Não deixar sua amada preocupada? Talvez um misto de tudo isso, mas internamente parecia que o interior de Victor não podia acreditar que toda aquela força de vontade, extra-humana por muitas vezes, que consumiu os seus pensamentos, e o das pessoas que o amam, seria mais uma vez preciso, e primordial para que não esmorecesse diante das agruras da vida. Decidiu de rompante tomar aquela atitude e não queria que houvesse qualquer sofrimento de ninguém com relação a isso. Para sua mãe disse ter sido um sucesso, e não comentou muito mais no assunto, sabendo que uma hora poderia não resistir e contar.As razões de Victor pra isso podem residir no fato de sempre acumular consigo o sentimento das pessoas pelas quais denota a suma importância de sua vida. Seja a alegria delas ou seu sofrimento. E de forma alguma queria os olhares assustados ou tristes de sua mãe, e nem a angustia e a ansiedade de Luana com mais uma barreira em sua vida. E com certeza, a despeito do que se era sabido ou não, a força do amor de Luh e Victor , com pensamentos amplamente positivos, seria mais uma vez o fator primordial para que essa barreira fosse deixada pra trás mais uma vez. De qualquer forma.