E chegaria o grande dia. Depois de meses de angustia, espera e confiança... Victor estava pronto para encarar seus medos e partir para sua cirurgia. Antes disso, logo ao acordar pegou o telefone e ligou para Luana. Era preciso que ele ligasse: próximo do horário em que começaria seus procedimentos pré cirúrgicos, como banho, esterelização, expurgo entre outras coisas, era preciso ter serenidade e confiança. O medo não podia lhe deixar com qualquer resquício de falsas intuições quanto a não dar certo. Tinha que dar. E quem sabia disso era Luana. Ela estava cheia de confiança e mais uma vez teria as palavras certas para deixa-lo mais avivado, isso sem contar com a saudade louca que estava sentido, uma vontade acima do normal de estar perto, de senti-la em seu interior. E isso o deixava mais pensativo: Porque está tão intenso? Será que é por ser um momento que não mais terei? E a cabeça de Victor ia se enchendo de esperanças e desalentos.
Na ligação, a voz de Luana ao telefone era musica aos ouvidos, uma musica mais forte, que lhe tomava a audição por completo. Já se cansara de ouvir barulhos dos gotejos da pia, ou do relógio marcando as horas. E nem mesmo a voz de seu amigo que estava acompanhando de perto a situação. Só a voz de Luana interessava.
Conversaram durante três minutos que pareceram 1 hora. Dessa vez o tempo agiu a favor dos dois. O tempo, que inúmeras vezes fora vilão tranformando horas em segundos, tratou de fazer o contrario. E Victor, após desligar transformou os três minutos em que ouviu a voz de sua Luh em muito mais que isso, podendo reproduzir mentalmente o som que lhe fazia ser tomado por uma confiança invejável àqueles que, dentro daquele ambiente, iam com a finalidade de encarar um problema que dificilmente sabem lidar.
E começaram os procedimentos: a pequena raspagem na coxa direita de Victor o incomodou um pouco, quanto ao banho e esterilização não teve qualquer problema pois o fez sozinho. Ainda sentiu um frio na espinha ao se deparar com a maca onde iria ser levado a sala de cirurgia. Na cabeça, apenas a imaginação do que Luana estava fazendo naquele momento, e a sensação de que suas mãos tocavam algo... mesmo com suas mãos juntas, imaginou fortemente ela as tocando suavemente e dando cada vez mais confiante de que seria apenas mais uma etapa a ser concluída.
Para ajudar nessa tranqüilidade, o enfermeiro assistente, já acostumado com esse tipo de situação começou a conversar com Victor sobre a cidade onde morava... enquanto essa conversa rolava, o anestesista preparava seu material e aplicava com precisao, sem que o paciente se desse conta do que estava acontecendo. Ainda assim tomou um relaxante muscular para que viesse ao menos um pouco de sono, como efeito colateral, já que a anestesia não era geral. E com isso durante todo o procedimento cirúrgico, Victor alternou entre acordar e dormir, sempre sentindo ou lembrando de muito pouco do que estava ocorrendo. A lembrança mais latente é de um incomodo na barriga, certamente a canopla que fora usada para extirpar o abcesso fazendo o seu trabalho. E assim tudo aparentou correr bem aos olhos dos cirurgiões. Victor mal sabia do que estava acontecendo, acordaria somente alguns momentos depois, e novamente sacou o telefone da cabeceira da cama, lógico que a primeira pessoa a quem ligaria seria Luana.
Toda angustia que esteve afastada de Victor durante todo o período anterior à cirurgia que acabara de fazer agora sobre no pós-operatorio. Á medida que o efeito da anestesia vai passando no corpo dele, as dores vão surgindo, principalmente na perna onde a canopla foi inserida e na barriga, na região onde o abcesso foi retirado. Ainda sente a carne endurecida, como parte da reação do corpo aos objetos estranhos que lá estavam. E a dor por vezes lhe tira a concentração. O verde do quarto começa a irritar pela incessante quantidade de vezes que o enxerga, e o branco dos lençóis em nada adianta a aplacar essa sensação. Quando fica autorizado a andar, mesmo que dessa vez ainda com auxilio da cadeira de rodas, vai direto ao saguão do hospital para conferir o movimento, porém, sem deixar de dar uma olhada à estação digital e conferir mesmo se a sala está tão lotada a ponto de ser impossível conversar com sua Luh.
Sobre a cadeira de rodas, vale aqui estabelecer um parênteses: Victor foi uma criança que muito aprontou, mas nada grave a ponto de se fazer necessário o uso de uma cadeira como essa. E usa-la sempre foi um “sonho” na cabeça do menino. Assim como aqueles sonhos que as crianças tem de quebrar o braço so para usar um gesso e todo mundo assinar. Coisa de criança que não entende muito as motivações para a necessidade desses recursos e nem suas prováveis conseqüências. Agora, depois de adulto, Victor se vê nessa situação, e o menino dentro dele sentiu uma vontade de acelerar a cadeira e deixar o enfermeiro a ver navios. Por um momento o menino The Flash ajudava ele a esquecer o porque de usar aquele aparato, e a dor que o deixara naquela situação.
E nesse ínterim, a estação digital ficou mais vazia, o numero de crianças diminuiu, e um silencio muito difícil de encontrar naquele local se fez presente: um ambiente perfeito para conversar com Luana, agora pelo computador, já que já havia dado algumas informações pelo telefone, mesmo estando meio difícil de encerrar as idéias com toda aquela carga de analgésicos e anti-inflamatorios. Não que neste momento ele estivesse tão melhor, mas os efeitos já estavam mais brandos, embora a sonolência insistisse em lhe perseguir.
E enfim conversaram. Luana mostrou ansiedade em saber como Victor estava, tinha passado o dia todo assim, e o dia anterior também. Com certeza a confiança que ela demonstrara estava com ela e permanecia ali, mas claro que em situações delicadas como essa há de se pensar em tudo. E ao mesmo tempo. Se pensar no pior não foi uma constante, em algum lampejo ele apareceu, isso sem contar com a expectativa natural que todo acontecimento gera. A alegria recíproca entre os dois era contagiante, capaz de , sabe-se lá se voluntariamente ou não, deixarem Victor ficar mais do que os 30 minutos que eram concedidos com certo rigor pelos enfermeiros para ocupar o computador. Naquela noite, os pensamentos de Victor já não mais estavam na irritação com o verde das paredes ou a monotonia de seu quarto. Estavam naquele olhar fascinante, nos cabelos, e nos carinhos de Luana que ele sentia suaves em sua alma. E assim embalou seu sono, como se não estivesse em uma maca, mas sim em uma cama. De casal.
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